Nossos cérebros não registram passivamente o mundo; eles criam ativamente isso. Esta não é uma ideia filosófica, mas um aspecto fundamental de como nossos sentidos funcionam e por que sobrevivemos. Desde sons fantasmas como o zumbido até a maneira como interpretamos as cores, o que você percebe não é necessariamente o que é – é o que seu cérebro lhe diz que é.

O Cérebro como Construtor

O professor de neurociência Pascal Wallisch explica que tudo o que vivenciamos é filtrado pelos nossos sentidos e depois interpretado pelo cérebro. Isto significa que a realidade não é objetiva, mas profundamente subjetiva; único para cada indivíduo.

“Tudo o que você percebe é filtrado pelos seus órgãos sensoriais e depois vai para o seu cérebro… Se presumirmos que você tem um cérebro único – o que eu tenho – então você está trazendo muito de si mesmo para o que experimentou.”

Não se trata apenas de ilusões visuais ou alucinações auditivas. O cérebro preenche lacunas, faz suposições e até cria sensações onde elas não existem. A coceira neuropática, por exemplo, é uma sensação puramente mental que parece intensamente real. Até mesmo ver formas nas nuvens é o seu cérebro impondo significado à aleatoriedade.

O vestido que quebrou a Internet

A infame imagem viral do “vestido” de 2015 – percebido como preto e azul ou branco e dourado – ilustra isso perfeitamente. A pesquisa de Wallisch mostrou que a diferença resultava de suposições sobre iluminação. Os notívagos, acostumados com a luz artificial, tendiam a vê-la como branca e dourada, enquanto aqueles mais familiarizados com a luz natural viam preto e azul.

Isso demonstra como a experiência anterior molda a percepção. O cérebro não espera por dados perfeitos; ele tira conclusões precipitadas com base no que já “sabe”.

Por que o cérebro faz isso? Sobrevivência.

O cérebro não foi projetado para ser preciso; ele foi projetado para velocidade. Num ambiente perigoso, a hesitação pode ser fatal. Nossos ancestrais que agiram com base em informações incompletas sobreviveram para transmitir seus genes.

“Seus sentidos não existem para o seu prazer visual. Eles existem para a sobrevivência… Para ser mais rápido, você basicamente tem que tirar conclusões precipitadas.”

Imagine encontrar um tigre na floresta. Esperar pela confirmação absoluta antes de reagir significaria virar almoço. O cérebro prioriza a ação em vez da certeza absoluta. Um alarme falso (ficar assustado sem motivo) é preferível a ser comido.

Matrix e realidades mais profundas

Isto levanta uma questão profunda: se os nossos cérebros constroem a realidade, quão fiáveis são os nossos sentidos? Wallisch sugere que eles são “muito confiáveis… por causa de muitos sistemas redundantes”. No entanto, ele também defende a humildade: devemos reconhecer os limites da nossa percepção.

Na verdade, podemos estar vivendo num “espaço de incorporação” de baixa dimensão, inconscientes de uma realidade muito mais profunda e inacessível. O cérebro nos força a fingir que o que vivenciamos é tudo, para funcionar.

“Você, eu e todos os outros, estamos compartilhando um espaço de incorporação de baixa dimensão, mas há uma realidade muito mais profunda lá fora que os sentidos do nosso cérebro não conseguem ver.”

Em última análise, os nossos cérebros não nos mostram a realidade; eles nos mostram uma versão da realidade que nos mantém vivos. E essa versão pode ser muito mais limitada do que pensamos.